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Breve Relato Histórico do Trabalho e do Início da Maçonaria

 áquila (Fra.)

Introdução

O operário comum sempre sofreu com as mudanças na forma da prestação de serviços, pois nunca esteve ao seu alcance uma maneira de alterar o sistema, sendo certo que este é um dos maiores fatores de desemprego nos tempos de globalização desenfreada. Desde períodos anteriores à Revolução Industrial que ocorreu por volta de 1830, os operários já sofriam com uma prestação de serviços dita livre, mas que na realidade era totalmente subjugada pelos senhores detentores dos meios de produção.

Antes de cada alteração na forma de produção sempre houve um levante na classe operária, a fim de obter uma melhoria em seus direitos como trabalhadores, para que o trabalho fosse prestado de forma digna e suficiente para o seu sustento e da sua família. A luta entre os patrões (capitalistas) e os operários (proletariado) é uma situação que sempre esteve presente na história. Mas nós devemos levar em conta também o fato de que muitas vezes o empregado pretende ganhar mais do que o seu trabalho vale, ou simplesmente mais do que merece, e isto está bem demonstrado na lenda maçônica da construção do Templo de Salomão:

Eis o mito, ou lenda de Hiram Abif, o filho da viúva: Quando o rei Salomão mandou construir o templo; pediu a Hiram, (o rei de uma região chamada Tiro), que lhe enviasse o seu melhor artífice, e este enviou Hiram Abif. O Rei Salomão ao admirar a habilidade e maestria com que o artífice realizava obras em bronze e outros trabalhos metalúrgicos, acabou por lhe confiar a chefia de seus planos para a construção do Templo. Este artífice/arquiteto, para facilitar e por ordem nos trabalhos de construção, dividiu os trabalhadores segundo suas habilidades, e como era grande o número deles, a fim de reconhecê-los, quer para empregá-los segundo seus méritos e habilidades, quer para remunerá-Ios segundo seu trabalho e sua especialização; dividiu os trabalhadores em três categorias: Aprendizes, Companheiros e Mestres, para tanto, deu a cada categoria de aprendizes, de companheiros e aos mestres palavras de passe e senhas particulares. Ocorreu no entanto que três trabalhadores (que em algumas narrativas são denominados respectivamente de Jubelo, Jubela e Jubelum) que estavam na categoria de companheiros, vendo que a construção estava quase sendo concluída, quiseram usurpar a posição de mestres, sem o devido merecimento; e puseram-se de emboscada nas três portas principais do templo, e quando Hiram se apresentou para sair, um dos companheiros pediu-lhe a palavra de ordem dos mestres, ameaçando-o com sua régua. Hiram lhe respondeu: "Não foi assim que recebi a palavra que me pedis." O companheiro furioso bateu em Hiram com sua régua fazendo-lhe uma primeira ferida. Hiram correu a uma outra porta, onde encontrou o segundo companheiro; mesma pergunta, a mesma resposta, e esta vez Hiram foi ferido com um esquadro, (dizem outros com uma alavanca). Na terceira porta estava o terceiro assassino que abateu o mestre com uma machadinha.

Estes três companheiros esconderam em seguida o cadáver sob um montão de entulhos e escombros da construção do templo, depois arrastam o corpo para fora da cidade, enterrando-o numa colina e plantaram sobre este túmulo improvisado um ramo de acácia, fugindo depois como Caim após a morte de Abel. Salomão e o rei Hirão, porém, não vendo regressar seu artífice/arquiteto, despachou nove trabalhadores da classe de mestres para procurá-lo; sendo que o ramo de acácia recém plantado na colina do Monte Moriá lhes revelou onde estava o cadáver, eles o tiraram de sob os escombros e como lá havia ficado bastante tempo, eles exclamaram, levantando-o: “Mach Benach” o que significa: a carne solta-se dos ossos. A Hiram Abif foram prestadas as últimas honras, mandando depois Salomão 27 mestres à caça dos assassinos. O primeiro assassino foi surpreendido numa caverna: perto dele ardia uma lâmpada, corria um regato a seus pés e para sua defesa achava-se a seu lado um punhal. O mestre que penetrou na caverna e reconheceu o assassino, tomou o punhal e feriu-o gritando: Nekun palavra que quer dizer “vingança”; sua cabeça foi levada a Salomão que estremeceu ao vê-la e disse ao que tinha assassinado: "Desgraçado, não sabias tu que eu me reservava o direito de punir?" Então todos os mestres se ajoelharam e pediram perdão para aquele cujo zelo o levara tão longe. O segundo assassino foi traído por um homem que lhe dera asilo; ele se escondera num rochedo perto de um espinheiro ardente, sobre o qual brilhava um arco-íris; ao seu lado achava-se deitado um cão cuja vigilância os mestres enganaram; pegaram o criminoso, amarraram-no e o conduziram-no a Jerusalém onde sofreu o último suplício. O terceiro foi morto por um leão que foi preciso vencer para apoderar-se do cadáver; outras versões dizem que ele se defendeu a machadadas contra os mestres que chegaram enfim a desarmá-lo e o levaram a Salomão que lhe fez expiar seu crime. Tal é a primeira lenda; eis agora a explicação. Salomão é a personificação da ciência e da sabedoria supremas. O templo é a realização e a figura do reino hierárquico da verdade e da razão sobre a terra. Hiram Abif é o homem que chegou ao domínio pela ciência e pela sabedoria. Ele governa pela justiça e pela ordem, dando a cada um segundo suas obras.

Bem, todos nós sabemos que é muito difícil encontrar por aí um chefe ou patrão que lembre mesmo que vagamente o poderoso e justo Salomão, mas voltemos ao assunto principal. No decorrer da história pós-revolução industrial, entraram em “moda” diversos métodos e sistemas de produção, no entanto os sistemas Taylor e Ford ainda hoje influenciam as novas tendências, apesar de não mais se aplicar nenhum destes em sua integralidade. Resumo dos dois sistemas: Taylor trouxe para as fábricas um modo de produção organizado, retirando os trabalhadores dos ambientes altamente insalubres e impróprios para uma melhor produtividade que eram comumente utilizados desde a Revolução Industrial; já Ford criou a produção em massa, de acordo com a capacidade produtiva das fábricas, e empregou, na sua época, grande parte da mão-de-obra desempregada e sem qualificação laboral, apesar de seu sistema também não qualificar o empregado.

Retrospecto Histórico

É importante ressaltar que a palavra “trabalho” não adveio com o início da prestação de serviços, mas que, foi somente por volta do século XI que passou a ser assim denominado o oferecimento da força pessoal de uma pessoa em favor de uma outra. A palavra “trabalho” tem uma conotação negativa ou depreciativa, significando, nos primórdios dos tempos a dificuldade em viver, ou mesmo de sobreviver, pois tudo o que é difícil de ser alcançado, é denominado de “trabalhoso”. No início o termo “trabalho” era usado para indicar as obras e tarefas humildes dos homens e mulheres que daí retiravam qualquer proveito.

Outro aspecto interessante é que a origem etimológica da palavra “trabalho” vem do radical romano labor, que é equivalente à palavra ponos, ou seja, pena. Na época de sua maior utilização (pois o período em que nasce uma palavra é muito difícil de precisar), no Império Romano as pessoas que precisavam trabalhar para sustentarem-se, consideravam a sua prestação de serviços à terceiros como uma pena imposta a eles em favor de seus senhores. Já na França, a palavra travail (trabalho) teve origem em tripaliare que significa pena, tortura, ou fazer sofrer, esta palavra, por sua vez é uma derivação de tripalium mais precisamente um instrumento de tortura com três paus, ou pontas de ferro, uma espécie de tridente como o associado ao deus Netuno e às gravuras do diabo. Além disto, a palavra travail designa também um tipo de dispositivo feito de várias traves às quais se prendiam os cavalos ou bois para serem ferrados. (isto de acordo com ALBORNOZ, Suzana. O que é trabalho, 6ª ed., São Paulo: Brasiliense, 1997, p.09)

Neste mesmo sentido, a palavra “operário” em sua origem está ligada ao sentido de restrição. Seu princípio revela estar em sintonia com a palavra “escravidão”, pois em francês ouvier, opera, opus, operarum. Sendo que a palavra operarum era uma designação para se referir aos escravos. Ainda na França, em meados do século XV, aparece a figura do prolétaire, designação derivada de proletárius, aquele que não consta na cidade, no Estado, senão pela sua descendência (proles), cidadão pobre isento de impostos. Prolétaire designa um indivíduo desprovido de meios de produção e de subsistência, o que o distingue de um indivíduo que possua suas próprias ferramentas. (isto de acordo com a Enciclopédia EINAUDI. Modo de produção/desenvolvimento/subdesenvolvimento. Lisboa: Imprensa nacional— Casa da Moeda, 1986, v7, p.11).

Como observamos acima, a origem das palavras já nos demonstra que a necessidade de laborar para sustentar-se era considerada já naquele período como uma pena imposta à pessoa do trabalhador, pois este não possuía possibilidade de escolher entre desfrutar da “vida”, ou laborar para possuir pelo menos uma “sobrevida”.

Em que se pese haver na língua portuguesa a palavra “labor” e a palavra “trabalho”, é possível encontrar nos dicionários o verbete “trabalho” com ambas as significações: a de realizar uma obra que se expresse , que d6e reconhecimento social e permaneça além do tempo de vida do agente; e a de esforço rotineiro e repetitivo, sem liberdade, de resultado consumível e incômodo inevitável; fadiga; labutação; ação mecânica dos agentes naturais; luta; lida. Na mesma esteira, temos a palavra “trabalhoso”: que dá trabalho; penoso; custoso; difícil; árduo. (Conforme Dicionário Brasileiro de Língua Portuguesa, J.T., Editora Globo) Sendo que atualmente a conotação da palavra “trabalho” que conhecemos tem sua valoração confrontada com o termo “capital”; apesar de ser uma realidade a contraposição entre esses dois elementos, que precisam de existência mútua para subsistirem.

Gênese do Trabalho Escravo

Abstrai-se disto que a história do trabalho humano , após a Era Neolítica compara-se a uma história de terror com toques de humor negro. Sendo que a 1ª civilização conhecida já era escravocrata, há mais de 5.000 anos. Na língua dos antigos Sumérios, a palavra escravo era derivada do termo utilizado para designar os estrangeiros, denunciando a origem política deste flagelo.

Ao senhor dos escravos tudo era permitido: desde torturas, sevícias diversas, mutilações, amputações, suplícios e abusos de toda ordem.. O trabalho humano ao contrário do que era imposto aos animais, não tinha limite de horário ou esforço. A vida do escravo, mera mercadoria, dependia apenas do desejo do seu dono. Neste período não era incomum que por ocasião da morte do dono dos escravos, os próprios eram enterrados vivos, junto com o cadáver de seu senhor para servi-lo no além-túmulo.

No entanto, em certos períodos da história, os escravos tinham até mesmo certas regalias, como nos conta o sábio Aristóteles (384-322 a.C.): diz ele que em Creta os escravos gozavam dos mesmos direitos dos cidadãos comuns, com apenas duas restrições peculiares: não podiam portar armas (por motivos óbvios) e estavam proibidos de fazer ginástica (os escravos brasileiros deram um jeitinho nisto “jogando” capoeira) Na Grécia clássica o trabalho braçal era tido como desonroso e, por isso, entregue aos escravos. Aqueles homens livres que desenvolviam alguma atividade lucrativa eram tratados com desprezo, como negociantes (aqueles que negam o ócio).

Ocorreu também um período em que os gregos foram transformados em escravos (146 a.C.) (também quem mandou eles darem aquele “presente de grego” — vide as obras de Homero e Enéias).Em Roma os escravos gregos se tornaram professores, filósofos e conselheiros de grande prestígio; deve-se portanto aos escravos gregos conquistados, um enorme impulso ao desenvolvimento cultural da civilização romana.

Na Roma antiga o escravo fazia parte da família. Por uma necessidade religiosa, o servo era integrado à família e iniciado em seu culto, através de uma cerimônia, na qual lhe derramavam água lustral sobre a cabeça e lhe era permitido partilhar dos bolos e frutas servidos. Além disso o escravo também tinha a proteção dos deuses “Lares” e era enterrado na mesma sepultura da família. (Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga). Cícero na obra De Legibus, assegura-nos ainda que nos dias de festa era proibido forçar o escravo a trabalhar.

Ocorre que em certo momento da História, a escravidão deixou seus fundamentos políticos, para fundar-se exclusivamente nos interesses econômicos. Neste período famílias inteiras, aldeias e tribos, eram subjugadas e seqüestradas para a comercialização no infame mercado da escravidão humana. (Resumo de Direito do trabalho, 5ª ed., Malheiros Editores)

Infelizmente isto não ficou para trás pois até mesmo nos dias de hoje a OIT (Organização Internacional do trabalho) recebe relatórios freqüentes de casos isolados de escravidão, inclusive no Brasil.

Até o fim do feudalismo o trabalho era prestado de forma obrigatória. Em Atenas e Roma, centro dos dois principais impérios da antigüidade, (mesmo após o período acima relatado), os serviços eram prestados por escravos, sendo que somente a terça parte da população era considerada livre, e qualquer paralelo com os tempos atuais não é mera coincidência. Na era feudal, o trabalhador estava vinculado a um senhor feudal (como veremos adiante), portanto o serviço prestado não pode ser considerado como sendo livre.

Nos demais continentes, a escravidão negra era a forma de realização dos serviços a serem executados, seja ele doméstico, ou no campo. O comércio escravagista sustentado pela grande quantidade de população africana perdurou até a intervenção inglesa ocorrida no século XIX. Na verdade, o fim da escravidão dos povos africanos teve uma de suas origens no advento da Revolução Industrial, pois a mão de obra escrava era imprópria para trabalhar com as máquinas nas indústrias.  

Gênese do Trabalho Livre

Sem entrar em discussões bíblicas, sabe-se que os primeiros povos a habitar a Terra viviam da extração de frutos silvestres e da caça. Eram povos nômades, que migravam para outras regiões após retirarem da do local onde estavam tudo aquilo que a terra pudesse oferecer. Era um sistema de vida que não gerava excedentes, pois a extração e a caça somente ocorriam quando da necessidade de alimentos para sobreviver. De acordo com Marshal Sahlins: o trabalho tribal é intermitente, esporádico, descontínuo, suspenso desde que já não necessário... O trabalho tribal também não é um trabalho alienado pelo próprio homem, destacável de seu ente social e negociável em correspondentes unidades de força de trabalho despersonalizada. Na tribo, o homem trabalha, mas produz apenas na sua qualidade de pessoa social, de cônjuge e de pai, de irmão e de parente da mesma linhagem, de membro de um clã, de uma aldeia... Ser um “trabalhador” não é uma instituição em si própria e o “trabalho” não é uma categoria real da economia tribal. (Chistyanne Regina Bortollotto — Dir. do Trabalho e Dir. Proc. do Trabalho, Juruá Ed., Curitiba, PR)

Segundo Suzana Albornoz, a fixação dos povos na terra pode ter ocorrido de duas maneiras: com a descoberta de que a terra rebrotava após a extração dos alimentos, e de que havia a possibilidade de realizar as plantações perto dos locais de moradia; e a outra forma provável da fixação do homem pode ter ocorrido pela dificuldade de as mulheres se locomoverem periodicamente. Cabia às mulheres a criação dos filhos, e a mudança costumeira lhes era muito trabalhosa, principalmente para as mulheres grávidas. Para aumentar o período de permanência em um local, passou-se a realizar plantações, bem como a domesticarem os animais. (Acredita-se que cabia às mulheres o cultivo da terra e aos homens a caça dos animais, daí o surgimento de “sacerdotisas” ligadas ao culto da fertilidade da terra e os homens serem retratados com chifres)

Neste ponto eu faço questão de mencionar a opinião de Riane Eisler, que entende: “que a invenção humana mais importante — o desenvolvimento da tecnologia para domesticar (o cultivo) de plantas — também foi o início da predominância masculina, do conflito armado e da escravidão”.

Com a fixação do homem à terra, os alimentos deixaram de ser retirados apenas de forma extrativa, e como as plantações eram sempre realizadas em quantidade superior à necessidade do povo, e tendo em vista que por adversidades climáticas nem sempre a colheita produzia o esperado, surge neste momento, os primeiros relatos de excedente de produção. As famílias passaram a produzir para sua própria subsistência e sobrevivência, havendo a partir deste período a troca de alimentos entre um povo e outro.

A história relata que foram os fenícios o primeiro povo dedicado ao comércio de bens produzidos em excesso.

Com esta possibilidade de se sustentar através de um suprimento alimentar regular e até mesmo de um excedente —, veio não somente a preponderância masculina, mas também a guerra e o começo de um a estrutura social e hierárquica.

Se observarmos de perto os novos dados que temos a respeito das primeiras sociedades agrárias ou neolíticas, realmente veremos que todas as tecnologias básicas, nas quais a civilização se fundamenta, foram desenvolvidas em sociedades que não eram de dominação masculina e guerreiras.

Ao contrário do que nos tem sido ensinado sobre o período Neolítico ou sobre as primeiras civilizações agrícolas como sendo predominantemente masculinas e violentas, essas eram geralmente sociedades pacíficas que negociavam extensivamente com os vizinhos, ao invés de matarem ou saquearem para adquirir riquezas. Também sabemos que, nessas sociedades altamente criativas, as mulheres ocupavam importantes posições sociais como sacerdotisas, artesãs e anciãs de clãs matrilineares. Além disto, eram geralmente sociedades igualitárias onde, como escreve James Mellaart, não existem sinais de grandes diferenças na posição social baseadas no sexo.

Isso não quer dizer que as sociedades neolíticas fossem utopias ideais (Todos os Nomes da Deusa — Joseph Campbell — Ed. Rosa dos Tempos — RJ — 1997). Porém, ao contrário das nossas sociedades dominantes atuais, elas não eram belicosas. Não eram sociedades nas quais as mulheres fossem subordinadas aos homens e não viam a nossa Terra como um objeto a ser explorado e dominado, já que o mundo era visto como uma Grande Mãe: uma entidade viva que, tanto nas suas manifestações temporais quanto espirituais, cria e nutre todas as formas de vida.  

A Idéia de Posse e Propriedade

O manuseio da terra de forma contínua gerou a criação do sentido de propriedade, e a partir desta de muitos outros conceitos que somente foram solidificados com o passar dos séculos.

A força que trabalhava a terra também sofreu modificações com a passagem dos tempos, sendo realizado por “escravos, servos ou mesmo camponeses” sendo que o excedente da produção era “recebido por fidalgos independentes ou por funcionários de uma monarquia ou de uma potência imperialista. Mas as linhas principais das relações econômicas eram sempre as mesmas: o excedente era consumido para manter um aparato militar e em parte para sustentar o padrão de vida da classe ociosa. Do trabalho sobre a terra se origina a riqueza que vai incentivar o desenvolvimento do trabalho artesanal; ao mesmo tempo, se intensifica o comércio, uma vez que há excedentes tanto na agricultura como na criação de animais. E da primitiva troca em espécies passa-se ao comércio mediato realizado com as primeiras formas de moeda.”

A Era Feudal

Durante a era feudal, imperou um sistema intermediário entre a servidão e o trabalho livre. Era um regime servidão que vinculava o trabalhador à terra.

Homens ou mesmo famílias inteiras, vítimas de alguma adversidade e pela falta de outra opção de sobrevivência, colocavam-se sob a proteção de um proprietário agrícola, o senhor. O servo jurava-lhe lealdade e era obrigado a pagar-lhe um tributo, geralmente extorsivo, e em troca recebia um pedaço de terra para explorar e se sustentar. Entretanto, grande parte do tempo era empregada no cultivo não remunerado das terras do próprio senhor da gleba. Os servos via de regra residiam em casebres paupérrimos feitos de argila e palha, e sobreviviam muitas vezes com uma dieta quase exclusiva de tubérculos :batata, cebola, nabo, repolho e pão preto. Somente comiam carne uma vez por ano, na festa de são martinho, no inverno, quando o gado era abatido, por falta de pasto. (Wanda Jaú Pimentel — História Antiga e Medieval, IBEP).

A condição de servo da gleba implicava submissão total e hereditária. Sendo que os servos e suas famílias eram vendidos junto com a terra (gleba), como se fossem acessórios desta.

No entanto, o mercado passou a ter importância aumentada com o correr dos tempos, as cidades (agrupamentos de glebas feudais) ganhavam forças. Como os mercadores moravam nas cidades, e as suas riquezas aumentavam vertiginosamente, alguns destes mercadores compravam a liberdade de suas cidades dos senhores feudais, e assim as cidades passavam a ser administradas por magistrados chamados de alcaides, burgomestres ou escabinos que, para resolverem assuntos importantes, convocavam uma assembléia dos cidadãos, o que não deixa de ser um pálido rascunho de democracia.

A partir do século XVI a servidão entra em declínio. A submissão dos feudos a um governo central, com a formação das nações, o surgimento do mercantilismo, a compra dos feudos, e a perda da importância da terra como fonte de riqueza contribuíram para esse declínio, até a total erradicação; sendo que o último país a abolir esse sistema foi a Rússia, por ordem do czar Alexandre II, já em pleno século XIX.

Surgem assim as primeiras vilas e cidades e, com elas os artesãos.

Ressalta-se ainda que certos tipos de ofícios tornaram-se indispensáveis nas cidades, e os setores de trabalhos passaram a ser agrupados em “corporações” de pessoas que exerciam o mesmo tipo de atividade.

“Essas corporações de profissionais orgulhosos foram chamadas de Corporações de Ofício” ou “Guildas” (As corporações agregavam apenas os artesãos, enquanto as guildas abrigavam também comerciantes e outros profissionais).

Seu desenvolvimento ocorreu a partir da produção do artesanato doméstico, onde toda a família laborava a sua matéria prima (advinda da agricultura ou da pecuária) com a finalidade de produzir os seus próprios instrumentos de trabalho, a suas roupas, e até mesmo a construção de seu próprio lar. Neste contexto nota-se que as corporações dos artesãos eram as mais numerosas, pois cada ofício fazia parte de uma especialidade.

As corporações de ofício eram divididas em três classes distintas: os mestres; os jornaleiros, oficiais, ou aprendizes e os aprendizes.

Os Mestres eram os aristocratas da indústria medieval. Eram os donos das oficinas e únicos autorizados a explorar economicamente determinada atividade profissional. As corporações eram dirigidas pelos mestres, que atuavam na defesa exclusiva dos interesses da classe.

Subordinado ao Mestre estava o Companheiro ou oficial, também chamado de jornaleiro, que trabalhava em troca de salário e que poderia mais tarde tornar-se Mestre. O acesso do Companheiro ao grau de Mestre — e conseqüente possibilidade de trabalhar por conta própria — dependia da prova da “obra-mestra”, um “capo-lavoro” ou obra-prima. O candidato elaborava uma obra, de alto grau de dificuldade, e o resultado era julgado pelos Mestres integrantes da corporação de ofício. Nem é necessário dizer que a aprovação era uma rara exceção.

Embora houvesse a remota possibilidade de ascensão, o objetivo principal era preservar o mercado de trabalho para os Mestres e seus herdeiros.

A classe dos Aprendizes era formada por jovens entregues aos Mestres por suas famílias, para que aprendessem um ofício. O Aprendiz em geral não recebia salário e sim, alimentação e alojamento; e quando terminava o período de instrução e treinamento, transformava-se em Companheiro.

Neste período, as corporações eram centros fechados, que não admitiam a exposição de suas técnicas a terceiros que dele não fizessem parte. A técnica utilizada era considerada um processo secreto, um saber especializado, fruto de uma longa aprendizagem, e de uma iniciação que se desenrola fora do grupo familiar. (Enciclopédia EINAUDI. Obra cit., p. 27). A restrição na apresentação das técnicas era de tal forma fechada que Etienne Boileau, em seu livro Livre des Métiers afirma que “todo Companheiro, quando entra na ordem dos Mestres, deve jurar amar fraternalmente os seus irmãos, defendê-los..., não divulgar voluntariamente os segredos do ofício” (Enciclopédia EINAUDI. Obra cit., p. 27.) Esta afirmação demonstra que, muito mais importante que os meios de produção (ferramentas), era o modo como esta era realizada. Naquele período, o cerne da profissão era o conhecimento, e não a detenção dos meios para realizar o trabalho.

Ressalta-se ainda que os membros das corporações de ofício tinham como função a produção da obra do desde o início até o fim, ou seja, não haviam divisões no trabalho. Desta forma, um sapateiro era encarregado de todo o trabalho da confecção de um par de sapatos, ou seja, desde o corte do solado até a fabricação do cadarço. Através desse sistema, verificava-se a qualidade do aprendizado e a possibilidade de um capolavoro, pois cada pessoa poderia auferir, ao final do dia, quantos bens produziu, sendo o seu trabalho solitário, não dependendo de outros para a sua elaboração.

Os Mestres eram pessoas que possuíam as ferramentas para o trabalho, sendo que tudo o que fosse produzido com elas lhes pertencia. As demais pessoas que colaboravam na realização do produto não tinham nenhum direito sobre este, recebendo seu pagamento de acordo com a sua classe, conforme explicado acima.

Com o passar dos anos, os Mestres passaram a não mais aceitar ninguém, nem mesmo aprendizes, pois desejavam limitar os conhecimentos desta profissão exclusivamente a seus familiares. Como decorrência direta disto, os Mestres eqüivaliam-se aos mercadores, pois as corporações de ofício detinham os meios de produção, fixavam o valor do produto e pagavam os salários de acordo com os preços fixados por eles.

Esta rigidez das corporações era um fator de estagnação que acabou inviabilizando-as quando as cidades cresceram e surgiram as idéias capitalistas mercantilistas.

A classe dos burgueses, pequenos comerciantes, embora tenha adquirido grande importância, estava afastada do poder e ansiava por regras que assegurassem a livre economia de mercado.

É exatamente neste período da história que aparece o germe da doutrina liberal, defendendo a liberdade absoluta da economia, e no mesmo compasso evoluindo para a liberdade absoluta do homem em todas as suas atividades.

Foi Adam Smith (1723-1790) quem formulou o embasamento econômico da nova escola, que poderia ser resumido na máxima laisser faire, laisser passer (literalmente: “deixar fazer, deixar passar”), que de forma corrompida e incompleta, poderia comparar-se a Faze o que tu queres, há de ser o todo da Lei. O Estado deveria se afastar totalmente dos assuntos da vida econômica, deixando que os particulares atuassem livremente, de acordo com as suas próprias vontades. Sendo que as únicas funções estatais eram manter a ordem, administrar a Justiça e promover a defesa contra qualquer ameaça de guerra externa.

Era o “ óbvio e simples sistema da liberdade natural ” nas palavras do próprio Adam Smith. Seria algo comparável ao período primitivo, onde a produção excedente era trocada por outro tipo de mercadoria, mas apenas adaptado para o sistema capitalista mercantilista.

Para fechar o ciclo e nomear outros expoentes da época, temos Jean-Jaques Rosseau, com a obra Contrato Social, de 1762 e o Barão de Montesquieu, com seu Espírito das Leis, de 1748, completando o arcabouço tanto filosófico quanto político da era do liberalismo clássico.

Por fim eclodiu a Revolução Francesa onde a burguesia (comerciantes e mestres de corporações de ofício) com os seus cidadãos, aproveitou que a aristocracia desarticulou-se à sombra de um rei fraco física e politicamente (Luís XVI) e tomou o poder com o auxílio da plebe que se encontrava miserável e enfurecida.

No fervilhar das novas idéias, em plena Revolução Francesa (1789), há um registro interessante e curioso: Jean-Paul Marat, principal líder do movimento revolucionário e idealizador de uma federação armada de trabalhadores livres, defendia a sobrevivência das corporações de ofício como única forma de manter o nível do aprendizado profissional, da qualidade dos produtos e da dignidade dos trabalhadores. Mas a surpresa se desfaz quando nos lembramos que a Revolução Francesa foi forjada no seio da Maçonaria, e que Marat obviamente era membro, ou pelo menos um emissário desta honorável organização.

Apesar das atrocidades inomináveis que ocorreram durante a Revolução Francesa, o tempo encarregou-se de demonstrar que Marat não estava completamente errado. Pois, nos séculos XVIII e XIX vários fatores, em especial o avanço tecnológico e a migração da mão-de-obra rural para os centros urbanos, contribuíram para que lentamente se instalasse a chamada “Revolução Industrial” na Inglaterra, transformando as oficinas dos artesãos em fábricas, com produção em larga escala. Época em que as lojas maçônicas deixam quase totalmente de ser operativas, para serem apenas Lojas simbólicas.

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