FICHA DE LEITURA

ADEUS AO TRABALHO: ENSAIO SOBRE AS METAMORFOSES E A CENTRALIDADE DO MUNDO DO TRABALHO

RICARDO ANTUNES

 10 EDIÇÃO. EDITORA CORTEZ, SÃO PAULO, CAMPINAS 2005.

 

  

CAPÍTULO I-FORDISMO, TOYOTISMO E ACUMULAÇÃO FLEXIVEL (pg.21)

 

            A década de 80 presenciou, nos países de capitalismo avançado, profundas transformações no mundo do trabalho, nas suas formas de inserção na estrutura produtiva, nas formas de representação sindical e política. Foram tão intensas as modificações que se pode afirmar que a classe que vive do trabalho sofreu a mais aguda crise deste século, que atingiu não só a sua materialidade, ms teve profundas repercussões na sua subjetividade e, no ritmo inter – relacionamento destes níveis, afetou a sua forma de ser.

            Em uma década de grande salto tecnológico, a automação, a robótica e a microeletrônica invadiram o universo fabril, inserindo –se e desenvolvendo-se nas relações de trabalho e de produção de capital.

            Novos processos de trabalho emergem, onde o cronômetro e a produção em serie e de massa são “substituídos” pela flexibilização da produção, pela “especialização flexível”, por novos padrões de busca de produtividade, por novas formas de adequação da produção à lógica do mercado.

            O taylorismo penetra, mescla-se ou mesmo substitui o padrão fordista, dominante em varias partes do capitalismo globalizado. Vivem-se formas transitórias de produção, cujos desdobramentos são também agudos, no que diz respeito aos direitos do trabalho.

            Direitos e conquistas históricas dos trabalhadores são substituídos e eliminados do mundo da produção. Diminui-se ou mescla-se, dependendo da intensidade o despotismo taylorista, pela participação dentro da ordem e do universo da empresa, pelo envolvimento manipulatório, próprio da sociabilidade moldada contemporaneamente pelo sistema produtor de mercadorias.

            Atribui-se a Sabel e Piore um pioneirismo na apresentação da tese da “especialização flexível”, esta seria a expressão de uma processualidade que, tendo especialmente a “Terceira Itália” como experiência concreta, teria possibilitado o advento de uma nova forma produtiva que articula, de um lado, um significativo desenvolvimento tecnológico e, de outro, uma desconcentração produtiva baseada em empresas médias e pequenas, “artesanais”.

             A crise do fordismo não é nada de novo, é apenas a mais recente manifestação da crise permanente do capitalismo. 

            Um sugestivo esboço analítico sobre o significado e os contornos das transformações vivenciadas pelo capitalismo nos é oferecido por Harvey. Segundo ele, os padrões de vida para a população trabalhadora dos países capitalistas centrais mantiveram relativa estabilidade e os lucros monopolíticos também eram estáveis.

            Em sua síntese sobre a acumulação flexível nos diz que essa fase da produção é “marcada” por um confronto direto com a rigidez do fordismo. Ela se opera na flexibilidade dos processos de trabalho, dos mercados e trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificados de inovação comercial, tecnológica e organizacional. A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do desenvolvimento desigual, tanto entre setores como entre regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado setor de serviço, bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas (Harvey, 1992: 140).

            Harvey desenvolve sua tese de que a acumulação flexível, na medida em que ainda é uma forma própria do capitalismo, mantém três características essenciais desse modo de produção. Primeira: é voltado para o crescimento; segunda: este crescimento em valores reais se apóia na exploração do trabalho vivo no universo da produção e terceira: o capitalismo tem uma intrínseca dinâmica tecnológica e organizacional.

            A conseqüência dessa processualidade, quando remetida ao mundo do trabalho, foi também indicada pelo autor: o trabalho organizado foi solapado. Ocorreram altos níveis de desemprego estrutural e houve retrocesso da ação sindical. O individualismo exacerbado encontrou, também, condições sociais favoráveis, entre tantas outras conseqüências negativas.

            Ao contrário da verticalização fordista, de que são exemplo as fábricas dos EUA, onde ocorreu uma integração vertical, à medida que os montadores ampliaram as áreas de atuação produtiva, no taylorismo tem-se uma horizontalização, reduzindo-se ao âmbito de produção da montadora e estendendo-se às subcontratadas à “terceiros”, a produção de elementos básicos, que no fordismo são atributo dos montadores. Essa horizontalização acarreta também, no taylorismo, a expansão desses métodos e procedimentos para toda a rede de fornecedores.

            O taylorismo estrutura-se a partir de um numero mínimo de trabalhadores, ampliando-os através de horas extras, trabalhadores temporários ou subcontratação, dependendo das condições de mercado. O ponto de partida básico é um numero reduzido de trabalhadores e a realização de horas extras.

            Ao invés do trabalho desqualificado, o operário torna-se polivalente. Ao invés da linha individualizada, ele se integra em uma equipe. Ao invés de produzir veículos em massa para pessoas que não conhece, ele fabrica um elemento para a “satisfação” da equipe que está na seqüência da sua linha.

            Desemprego este que é o resultado dessas transformações no processo produtivo, e que encontra, no modelo japonês, no taylorismo, aquele que tem causado maior impacto, na ordem mundializada e globalizada do capital.

            O resultado do processo de trabalho corporificado no produto permanece alheio e estranho ao produtor, preservando, sob todos os aspectos, o fetichismo de mercadoria. A existência de uma atividade autodeterminada, em todas as fases do processo produtivo, é uma absoluta impossibilidade sob o taylorismo, porque seu comando permanece movido pela lógica do sistema produtivo de mercadorias.

            Os sindicalistas operam um intenso caminho de institucionalização e de crescente distanciamento dos movimentos autônomos de classe. Distanciam-se da ação, desenvolvida pelo sindicalismo classista e pelos movimentos sociais anticapitalistas, que visavam o controle social da produção, ação esta tão intensa em décadas anteriores e subordinam-se à participação dentro da ordem. Tramam seus movimentos dentro dos valores fornecidos pela sociabilidade do mercado e do capital.

            As diversas formas de resistência de classe encontram barreiras na ausência de direções dotadas de uma consciência para alem do capital.

           

       

CAPÍTULO II – AS METAMORFOSES DO MUNDO DO TRABALHO

 

            Observa-se, no universo do mundo do trabalho no capitalismo contemporâneo, uma múltipla processualidade: de um lado verificou-se uma desproletarização do trabalho industrial, fabril, em paises do capitalismo avançado, com maior ou menor repercussão em áreas industrializadas do terceiro mundo.

            Há uma processualidade contraditória que, de um lado, reduz o operariado industrial e fabril, de outro, aumenta o subproletariado, o trabalho precário e o assalariamento no setor de serviços.

            Como diz Alain Bihr (1991: 89), essas diversas categorias de trabalhadores têm em comum a precariedade do emprego e da remuneração, a desregulamentação das condições de trabalho em relação às normas legais vigentes ou acordadas e a conseqüente regressão dos direitos sociais, bem como a ausência da proteção e expressões sindicais, configurando uma tendência à individualização extrema da relação salarial.

            A presença feminina no mundo do trabalho nos permite acrescentar que, a consciência de classe é uma articulação complexa, comportando identidades e heterogeneidades, entre singularidades que vivem uma situação particular no processo produtivo e na vida social, na esfera da materialidade e da subjetividade, tanto a contradição entre o individualismo e sua classe, quanto aquela que advém da relação entre classe e gênero, tornaram-se ainda mais agudos na era contemporânea.

            Há ainda uma outra conseqüência muito importante, no interior da classe trabalhadora, que tem uma dupla direção: paralelamente à redução quantitativa do operariado industrial tradicional dá-se uma alteração qualitativa na forma de ser do trabalho, que de um lado impulsiona para uma maior qualificação do trabalho e, de outro, para uma maior desqualificação. A redução da dimensão variável do capital, em decorrência do crescimento de sua dimensão constante ou, em outras palavras, a substituição do trabalho vivo pelo trabalho morto oferece, a possibilidade de o trabalhador aproximar-se do que Marx (1972: 228) chamou de “supervisor e regulador do processo de produção”. Porém, a plena efetivação dessa tendência está impossibilitada pela própria lógica do capital.

            Portanto, a tendência apontada por Marx, cuja efetivação plena supõe a ruptura em relação à lógica do capital, deixa evidenciado que, enquanto perdurar o modo de produção capitalista, não pode se concretizar a eliminação do trabalho como fonte criadora do valor, mas, isto sim, uma mudança no interior do processo de trabalho que decorre do avanço cientifico e tecnológico e que se configura pelo peso crescente da dimensão mais qualificada do trabalho, pela intelectualização do trabalho social.

            Evidencia-se, portanto, que ao mesmo tempo em que se visualiza uma tendência para a qualificação do trabalho, desenvolve –se também intensamente um nítido processo de desqualificação dos trabalhadores, que acaba configurando um processo contraditório que superqualifica em vários ramos produtivos e desqualifica em outros.

 

    

CAPÍTULO III – DIMENSÕES DA CRISE CONTEMPORÂNEA DO SOCIALISMO:

 IMPASSES E DESAFIOS

 

            Uma tendência de burocratização e institucionalização das entidades sindicais, que se distanciam dos movimentos sócio autônomos, optando por uma alternativa de atuação dada vez mais integrada à institucionalidade, ganhando com isso, legitimidade e estatuto de moderação, pelo distanciamento cada vez maior de ação anticapitalista, e a conseqüente perda de radicalidade. Constituíram-se e consolidaram-se enquanto organismos defensivos e por isso têm se mostrado incapacitado para desenvolver e desencadear uma ação para alem do capital.

            A fragmentação, heterogeneização, complexificação da classe que vive do trabalho, questiona na raiz o sindicalismo tradicional e dificulta também a organização sindical de outros segmentos que compreendem a classe trabalhadora. Como diz Visser, o sindicalismo tem encontrado dificuldades para incorporar as mulheres, os empregados de escritório, os que trabalham no setor de serviços mercantis, os empregados de pequenas empresas e os trabalhadores em tempo parcial.

   

 CAPÍTULO IV – QUAL A CRISE DA SOCIEDADE DO TRABALHO?

 

A diminuição do fator subjetivo do processo de trabalho em relação aos seus fatores objetivos ou o aumento crescente do capital constante em relação ao variável reduz relativamente, mas não elimina o papel do trabalho coletivo na produção de valores de troca (Marx, 1975: 723,724).

             Habermas faz a síntese mais articulada desta tese: a utopia da sociedade do trabalho perdeu sua força persuasiva. Acima de tudo a utopia perdeu seu ponto de referencia na realidade: a força estruturadora e socializadora do trabalho abstrato.

            É necessário assinalar que ao contrário das formulações que preconizam o fim das lutas sociais entre as classes, é possível reconhecer a persistência dos antagonismos entre o capital social total e a totalidade do trabalho ainda que particularizado pelos inúmeros elementos que caracterizam a região, país, economia, sociedade, cultura, gênero, sua inserção na estrutura produtiva global, etc. Dado o caráter mundializado e globalizado do capital, torna-se necessário apreender também as particularidades e singularidades presentes nos confrontos entre as classes sociais, tanto nos países avançados quanto naqueles que não estão diretamente no centro do sistema – do qual faz parte uma gama significativa de países intermediários e industrializados como o Brasil.

            O trabalho alienado (ou estranho) é a forma como a atividade humana se objetiva na sociedade capitalista, onde o que deveria ser uma atividade vital do ser social que trabalha se converte em mercadoria, e o produto do trabalho aparece como alheio e estranho ao trabalhador.

 

  

APÊNDICE

A crise vista em sua globalidade

 

Kurz redesenha o colapso da sociedade produtora de mercadoria-dinheiro. E não vê uma saída emancipadora impulsionada pelas forças de trabalho, como também parece não considerar a hipótese de uma reação conservadora das forças burguesas visando minimizar a crise e desse modo prolongar a sociabilidacrise e desse modo prlongar a sociebiliade tamb produç desin o trabalho abstrato, a condiçça ado, o trabalho precidede regida pelo capital.

  

Indivíduo, classe e gênero humano: o movimento da mediação partidária

 

Se o indivíduo é a expressão da singularidade e o gênero humano é uma dimensão de universalidade, a classe é a mediação que particulariza os seres sociais que vivenciam condições de similitude em sua existência concreta, no mundo da produção e reprodução social. A consciência de uma classe é, pois, a articulação complexa comportando identidades e heterogeneidades, entre singularidades que vivem uma situação particular

  

Trabalho e Estranhamento

 

A dimensão abstrata do trabalho mascara e faz desvanecer a sua dimensão concreta de trabalho útil. Disto resulta o caráter misterioso ou feitichisado da mercadoria: ela encobre as dimensões sociais do próprio trabalho, mostrando-as como inerentes aos produtos do trabalho. Mascaram-se as relações sociais existentes entre os trabalhos individuais e o trabalho total, apresentando-as como relações entre objetos coisificados.

 

 A prevalência da lógica do capital

 

A análise das experiências revolucionárias do século XX, nos permite concluir que “a revolução social vitoriosa não poderá ser local ou nacional; somente a revolução política poderá confinar-se dentro de uma quadro limitado”. Do que se de prende que as ocorrências de revoluções políticas nacionais não levam a realização imediata.e nacional do socialismo, uma vez que este supõe um processo ampliado e de dimensão universalizante.

 

 

Dimensões da crise contemporânea ou da nova (des) ordem internacional

 

Consolida-se uma lógica de produção essencialmente destrutiva, onde o valor de uso das coisas é subordinada ao valor de troca. Como resultado disso o capital adquire algumas novas potencialidades produtivas, na medida em que realmente não há conseqüência alguma para o seu sistema se a taxa de uso, que caracteriza a relação do consumidor com um dado produto for máxima ou mínima. Isto não afeta em absolutamente nada, a única coisa que realmente importa do ponto de vista do capital.

  

Mundo do trabalho e sindicatos na era da reestruturação produtiva: impasses e desafios do novo sindicalismo brasileiro

 

Os sindicatos foram forçados a assumir uma ação cada vez mais defensiva, cada vez mais atada a imediatidade, a contingência, regredindo sua já limitada ação de defesa de classe no universo do capital. Gradativamente foram abandonados seus traços anticapitalistas, aturdidos que estavam, visando preservar a jornada de trabalho regulamentada, os demais direitos sociais já conquistados e, quanto mais a revolução técnica do capital avançava, lutavam para manter o mais elementar e defensivo dos direitos da classe trabalhadora, sem os quais sua sobrevivência está ameaçada: o direito ao trabalho, ao emprego.

   

BREVE ANÁLISE

O livro de Ricardo Antunes aborda sobre vários aspectos referentes à questão das transformações no mundo do trabalho, inclusive abordando a concepção de diferentes autores.

Primeiramente ele trata da questão dos modos de produção fordista e taylorista que surgiram nos países europeus e que mudaram totalmente a estrutura trabalhista, O taylorismo surge organizando e sistematizando cientificamente o trabalho. O sistema fordista foi um aperfeiçoamento do taylorismo introduzindo nas fábricas o trabalho em série. É interessante destacar nestas épocas o papel dos sindicatos, pois eles tinham muito mais força do que tem nos dias atuais; os trabalhadores organizavam – se juntamente com os sindicatos através de manifestações (pode-se destacar principalmente as greves).

O toyotismo foi um sistema de organização da produção capitalista que se desenvolveu a partir da globalização do capitalismo. Com isso, a situação trabalhista foi modificada, a mão de obra passa a ser superexplorada e o trabalho cada vez mais desvalorizado; os sindicatos perdem sua força, não ocorrendo mais mobilizações e sim perda de direitos.

Nos dias atuais ainda é mais agravante: a flexibilização do trabalho exige que o trabalhador seja flexível buscando cada vez mais especialização para poder se destacar dentro do mercado de trabalho. O mercado se impõe de tal forma que muitos estão excluídos dele, e os que nele estão inseridos criam entre si uma rivalidade criada por esse mercado tão competitivo e restrito.

Em relação aos sindicatos, estes já não tem mais a mesma força que tinham no passado; hoje a força se concentra nos patrões, ou seja, nos empresários.

O neoliberalismo propicia essas situações; ele expulsa do mercado os que não são qualificados, deixando esses indivíduos à margem da sociedade. Nos dias atuais, quem está fora do padrão capitalista (quem não está qualificado adequadamente como o sistema deseja) encontra-se como força não produtiva, sem nenhum tipo de proteção, desprovidos de direitos e, encontrando-se conseqüentemente a mercê do sistema.